Conheça o Guia Afetivo da Periferia

O Guia Afetivo da Periferia será o dispositivo do Apalpe

Provar que o Guia Afetivo da Periferia é uma estratégia estética, um negócio e também uma militância. Esse é o objetivo de Marcus Vinicius Faustini, escritor, diretor teatral e ex-secretário municipal de Cultura e Turismo de Nova Iguaçu, ao adotar a metodologia de seu livro como modelo para o projeto Apalpe – A palavra da periferia. 

A proposta do Apalpe é estimular esteticamente os participantes, ao longo de dez semanas, a produzirem seus próprios “guias”. Mas o que é o Guia Afetivo da Periferia

Lançando no final do ano passado, o Guia Afetivo da Periferia, escrito por Faustini, traz seus relatos de infância e juventude, revividos numa intensa simbiose com a cidade, com o ambiente urbano. 

Nascido na Baixada Fluminense e criado em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio — um dos subúrbios mais afastados da Central do Brasil —, o diretor descreveu a forma como o meio urbano moldou o seu olhar estético. 

Trata-se de um olhar lírico e, ao mesmo tempo crítico, que apresenta uma nova forma de enxergar e interagir com a realidade, transformando-a a cada momento. 

“Na cidade eu procuro a ficção”, escreveu o autor, que também contou sua experiência como líder estudantil nos anos de 1980. Segundo Faustini, seu romance segue uma linha de interpretação, presente na Literatura Brasileira. 

“Já aceitamos na representação de pobre do Brasil que o homem era a terra. Euclides da Cunha falou disso em ‘Os Sertões’. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Fabiano é aquele homem do sertão com a subjetividade entranhada na terra. E, no ambiente urbano, o homem é o seu território. Estou seguindo uma linha de interpretação literária. Não estou fazendo apenas projeto social, estou fazendo projeto estético com designer social”, explicou Faustini. 

Com uma narrativa concisa, ágil e precisa, o escritor conta suas peripécias de menino, utilizadas para aliviar a sua “dor de existir” que latejava durante a viagem diária de mais de duas horas de Santa Cruz ao Centro do Rio, aonde trabalhava como “menor-aprendiz” no Banco do Brasil. 

Faustini, um dos fundadores do projeto Reperiferia — que com trabalhos de Teatro, Cinema e Música traz para o centro da cena cultural jovens da periferia do Rio de Janeiro — e também um legítimo flâneur*, salienta a influência do território em sua produção estética. 

“A rua para classe média é transgressão. É, às vezes, fetiche. Já para a classe popular, a rua é o seu dia-a-dia. É lugar do encontro. A rua é meu Orkut, aonde eu faço minhas interfaces”, observou o diretor teatral, acrescendo que costuma vender seu livro nas ruas, em lugares inusitados, como nos bares da Lapa e nos arredores da Central do Brasil. 

Memória do tempo presente – Classificado como uma obra que trabalha no plano da superficialidade pelo próprio autor, o Guia Afetivo da Periferia inaugura, segundo Heloísa Buarque de Hollanda, escritora e coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PACC/UFRJ), o gênero “memória do tempo presente” em nossa literatura. 

“Faustini inaugura com ‘Guia Afetivo da Periferia’ um novo gênero de literatura: a literatura memória do presente. Um conceito novo onde ele não mais representa suas lembranças de menino, mas atua no presente com uma viagem que se abre em infinitas possibilidades do percorrer, do transitar e do agir. Com a vantagem suplementar e deliciosa de ser extremamente bem escrito”, escreveu a coordenadora do PACC/UFRJ e também coordenadora do Apalpe. 

Com qualidade literária reconhecida no Brasil e no exterior, o romance vem sendo apontado como uma das grandes novidades da literatura brasileira, visto que apresenta um “autorretrato” da periferia, sem o tom muitas vezes melo dramático presente na produção de escritores que, com um olhar externo, criavam representações das classes populares. 

Disposto a compartilhar seu processo criativo com os participantes das oficinas do Apalpe, o ex-secretário de Cultura e Turismo de Nova Iguaçu pretende, com o projeto, multiplicar os retratos da cidade, traçando um mapa, afetivo, da periferia do Rio. 

“Meu processo criativo foi aberto. Escrever sozinho é uma caverna: é a proposta do escritor burguês. Quero um processo compartilhado. Quero provar que meu livro é um negócio, uma estratégia estética e uma militância. Quero que mais moleques vejam e queiram fazer isso. Quero que eles façam seus livros. Quero incluir os meus e deixar a cidade mais democrática. É preciso incluir na fruição e problematizar a existência”, concluiu Faustini. 

*Flâneur – É um observador que caminha tranquilamente pelas ruas, apreendendo cada detalhe, sem ser notado, sem se inserir na paisagem, que busca uma nova percepção da cidade. (In “O novo flâneur”, por Fernanda Passos, Mariana Gouvêa, Raphael Tosti e Rodrigo Polito <http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/media/2%20-%20o%20novo%20fl%C3%A2neur.pdf>).

Sobre alebizoni

Jornalista especializada em Mídia e Educação
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2 respostas para Conheça o Guia Afetivo da Periferia

  1. quero me inscrever no APALPE e não encontrei o link nem programa, nem horários, local, tudo o que preciso para me planejar.
    agradeço retorno.
    abraços
    Alair. lála

    • alebizoni disse:

      Olá Alair,

      O APALPE – A Palavra da Periferia é um projeto que realizará experimentações estéticas a partir do uso da palavra. Literatura, vídeo, artes plásticas e fotografia são algumas das linguagens presentes no processo de oficinas, que têm como objetivo promover o encorajamento estético dos participantes, de modo que a memória individual e coletiva possa se transformar em expressão.

      As oficinas são inteiramente gratuitas e acontecerão aos sábados, a partir do dia 10 de julho. São 10 encontros que serão realizados no IBAM (Humaitá) durante todo o dia.

      Ao final da oficina haverá um grande evento para exposição de trabalhos e/ou processos.

      Para participar da oficina é necessário fazer a inscrição através do e mail apalpe2010@gmail.com ou
      pelo tel: 2507 2909.

      Feita a inscrição você deverá participar de um processo seletivo, que acontecerá neste sábado, dia 3 de julho, às 10h da manhã, no Circo Crescer e Viver (Praça XI).

      Mande o e-mail e boa sorte!

      “Na cidade eu procuro a ficção”
      Guia afetivo da periferia

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