Apalpe recebe Luiz Eduardo Soares

Luiz Eduardo Soares discutiu o conceito de Cidade

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do curso de Gestão e Políticas em Segurança Pública na Universidade Estácio de Sá (Uesa), ex-secretário Nacional de Segurança, coautor dos livros Cabeça de Porco, Elite da Tropa e Espírito Santo, autor de Meu Casaco de General, roteirista de Tropa de Elite I e II, Luiz Eduardo Soares conversou com os participantes do Apalpe no último dia 28. 

Para falar sobre a Cidade, o doutor em Ciência Política iniciou a conversa revelando que, na Idade Média, a expectativa de vida do sexo masculino era de apenas 25 anos. As mulheres viviam mais. Isso porque os homens, explicou Luiz Eduardo, eram educados para serem guerreiros, combaterem em batalhas nos constantes embates entre os povoados. 

Segundo o professor da Uerj, a situação mudou com o surgimento do Estado-Nação, o que possibilitou o nascimento da Cidade. “A criação do Estado modificou a forma como as pessoas se comportavam. Os senhores feudais tinham seus exércitos. O Estado-Nação funcionou como um captador de armas, que ficam sob seu controle. A força posta em ação por um soberano reduziu a imprevisibilidade de uma guerra. Com isso, houve um salto extraordinário na expectativa de vida”, observou. 

Com isso, a sofisticação das relações sociais deu lugar ao emprego da força bruta. Nesse contexto, a Cidade surgiu como núcleo do Estado e sua representação formal começou a ser marcada pela experiência de espaço.  Tem início nessa fase a idéia de individualidade, de privacidade, materializada nas residências na criação dos quartos. 

“Em 1789, novos valores convergiram e aconteceu a Revolução Francesa. Daí surgiu a Declaração dos Direitos do Homem, com certa orientação universal”, assinalou Luiz Eduardo.   

Com o surgimento da Cidade, argumentou o professor da Uesa, a multiplicidade passou a conviver e se contrapor à individualidade. “Cada um escreve seu guia. Às vezes, as pessoas escrevem sobre o mesmo lugar e parece que são cidades diferentes. As cidades são múltiplas do ponto de vista do mapa e do tempo”, ponderou. 

Nesse contexto, afirmou Luiz Eduardo, também apareceu o conceito de periferia. “A idéia de periferia parte de um discurso que está do outro lado. É preciso que alguém se afirme como centro para que haja a periferia”, pontuou. 

A lógica paraconsistente e o Apalpe 

Para dar conta da multiplicidade de experiências e relatos da Cidade nos dias atuais, explicou o autor de Meu casaco de general, não basta fazer uma análise cartesiana da realidade, mas é preciso aplicar teorias vinculadas à idéia de complexidade, como a lógica paraconsistente. 

Criada pelo professor titular da Universidade de Campinas (Unicamp) Newton Carneiro Affonso da Costa, matemático, lógico e filósofo brasileiro, a lógica paraconsistente prevê a existência de proposições contraditórias num mesmo sistema. Ou seja, um sistema ora é A, ora é A-1. A teoria da complexidade foi exemplificada pelo antropólogo. 

“O fato de um sistema se comportar como A não o impede de se comportar como A-1. Não foi por acaso que essa teoria, reconhecida internacionalmente, surgiu no Brasil. Um exemplo disso é o sincretismo religioso. Mãe Menininha, um ícone da cultura afro-brasileira, se declarou católica. Essa lógica paraconsistente está mais próxima da linguagem simbólica, do panteísmo”, completou o professor. 

Nesse sentido, o Apalpe poderia ser interpretado como um exercício da lógica paraconsistente uma vez que estimula cada um dos participantes a elaborarem seus próprios guias afetivos. Cada experiência é legítima, mesmo que haja relatos “contraditórios” entre si. 

“As artes são o espaço para este exercício que, muitas vezes, se torna trabalhoso no campo acadêmico das Ciências Sociais, por exemplo”, concluiu Luiz Eduardo. 

Neste contexto, Marcus Vinicius Faustini questionou Luiz Eduardo sobre o lugar da representação à luz da lógica paraconsistente? 

A resposta do autor de Cabeça de Porco foi que é preciso repensar a representação, que não deixa de ser uma metafísica da linguagem. “Acredito que vivemos um momento em que faz mais sentido a intervenção do que a representação no sentido da representação platônica”, respondeu o ex-secretário Nacional de Segurança.

Sobre alebizoni

Jornalista especializada em Mídia e Educação
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3 respostas para Apalpe recebe Luiz Eduardo Soares

  1. Cristina Hare disse:

    _ Então , sendo assim, o Apalpe poderia ser classificado como sendo um exercício da lógica paraconsistente , uma vez que cada um dos integrantes elabora seus guias afetivos a partir de experiências legítimas, e através dessas atividades , comprovam que A e A-1 coexistem , sem necessariamente serem contraditórios?

    Questionei ao mestre ansiosa, as idéias palpitando na cabeça…
    Ele respondeu que era exatamente isso, o que deu alívio imediato para alguém que como eu, tem uma nessecidade aflita de definições.

    Hare
    http://www.tvhare.com

  2. Flávia Muniz disse:

    Acho que foi o melhor dia até agora!
    😉

  3. Ernani Cal disse:

    Passei o dia seguinte a palestra em silêncio, para que as palavras do mestre ecoassem.

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