Apalpando com Helô

Heloísa Buarque de Hollanda, uma das coordenadoras do Apalpe, conversou com o grupo sobre Cultura Digital

Cultura Digital e Periferia. Estes são os interesses de pesquisa da irrequieta  Heloísa Buarque de Hollanda, uma das coordenadoras do projeto Apalpe – A palavra da periferia.  

No último sábado, dia 14, a professora titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC/UFRJ) explicou, na Oficina de Linguagem do Apalpe, o porquê de seu interesse por essas duas fortes ondas da cultura do Século XXI.  

 O tema de sua conversa com os apalpianos foi “Cultura Digital”, mas a coordenadora do projeto salientou a importância da visibilidade da “Cultura da Periferia” e a interlocução entre estes dois novos pólos de produção.  

 “Sou da geração dos anos 60 e via gente indo à favela explicar para as pessoas o que elas deveriam pensar e querer. E, hoje, vamos a saraus e aprendemos com a periferia, que ganhou voz e visibilidade. Existe a possibilidade de uma conexão muito forte entre a Cultura do asfalto e a da periferia, o que vai revitalizar a cultura do século XXI. Desse caldo vai sair uma nova cultura. E também tem o impacto da cultura digital, que ajudou a dar voz à periferia”, explicou Helô.  

 Ao falar do lugar da academia, de sua área de formação, Letras, a coordenadora do Apalpe assinalou a resistência no meio acadêmico a estas duas culturas novas: a digital e a da periferia. Segundo a docente, ambas são alvo de preconceito linguístico.  

 “A Cultura Digital é vista pela academia como uma coisa horrível. As pessoas escrevem errado, têm leitura superficial, não sabem mais interpretar. É um discurso apocalíptico, que se repete em relação à periferia: são uns iletrados e o que eles fazem não é literatura de jeito nenhum. Esses  dois fenômenos têm uma rejeição muito forte”, acrescentou a coordenadora do PACC/UFRJ.  

 Qual é a especificidade da Cultura Digital?  

 Após se servir de autores como Umberto Eco, a pesquisadora descobriu que o diferencial da dita “Cultura Digital” é a simultaneidade. O específico do meio digital é a possibilidade de, numa mesma tela, várias linguagens interagirem numa mesma plataforma.  

Na tela do computador há possibilidades de se misturar tudo. As linguagens se contaminam e se retroalimentam.  

“Hoje ainda temos cursos de Artes Visuais, de Cinema. Mas, na prática, essas divisões tendem a não existir mais”, esclareceu Helô.  

Surge, então, o conceito de convergência que ganha força na medida em que a “Cultura Digital” avança. É a cultura do “remix”, do “sample”.  Contudo, a palavra ganha força nessa cultura híbrida.  

“Umberto Eco diz que o século XX foi conhecido como o século da imagem, em função do Cinema, da Publicidade. A garotada era formada na imagem. E século XXI vai ser o século da palavra. A mídia dominante na internet é a palavra”, afirmou a professora.
 
Essa convergência, entretanto, ainda não se tornou uma prática prazerosa para a Literatura, que ainda engatinha no ambiente digital.  

“Desde a segunda metade do século XX, a Literatura quer sair do papel. Porém, acho que a Literatura Digital ainda não começou. Um livro digital ainda é chato. O livro para ser o livro que temos em nossas mãos, hoje, levou mais de 500 anos se organizando. Acredito que com a Literatura Digital esse processo será mais rápido. Mas ainda é um processo em construção”, acrescentou a pesquisadora.  

Dentro dessa Cultura de Convergência, prosseguiu Helô, o conceito de narrativa se expande. Dentro de uma lógica de consumo de uma infinidade de possibilidades potencializadas pelos caminhos digitais, surge o conceito de “Universo de Criação”. No lugar apenas de uma estória, brota um universo dentro do qual surgem vários produtos.  

“O filme Avatar, a saga Crepúsculo ou as aventuras de Harry Porter são exemplos dessas práticas. Não se trata apenas do filme, mas de games, brinquedos, uma série de produtos que surgem dentro de um universo. Desse modo, os personagens precisam ser mais complexos. Não se pensa mais em um produto sozinho. E a Literatura está indo nessa pegada”, revelou a professora.  

Nesse sentido, a internet se tornou um laboratório sem fim. As linguagens não ficam mais sozinhas em suas especificidades: transbordam para outras plataformas. A poesia transita pelo Cinema, pelo Designer, pelo Teatro.   

Ao mesmo tempo, com o avanço das novas tecnologias, a Cultura da colaboração, da inteligência coletiva, passou a ocupar o lugar do especialista, do autor.

“A acumulação do saber dá lugar à articulação do conhecimento”, pontuou a docente, destacando que na Cultura do remix, a autoria surge como uma questão. 

Heloísa Buarque de Hollanda foi acompanhada da estudante Luiza Miguez, que mostrou experiências de Literatura Digital

Interativo X participativo

No que tange à Literatura, as práticas literárias começam a mudar sua relação com a obra literária, em função do suporte e das plataformas. Nesse sentido, a coordenadora do Apalpe fez a diferenciação entre dois conceitos importantes: o interativo e o participativo.

Segundo Helô, no universo interativo existe um número limitado de possibilidades de percursos do leitor. “Num livro interativo, por exemplo, o leitor cria dentro das possibilidades definidas pelo autor”,  explicou.

Já no ambiente participativo, não existe controle para a criação. Ela começa sem saber quais caminhos irão surgir, sem saber quais serão os desdobramentos. “No ambiente participativo, as narrativas se desdobram. São contos criados pelo Orkut, por exemplo, nos quais cada um escreve um parágrafo até o conto ficar pronto. Existe um ponto inicial, mas não se sabe no que vai dar”, completou a coordenadora do Apalpe.

Sobre alebizoni

Jornalista especializada em Mídia e Educação
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Uma resposta para Apalpando com Helô

  1. Cristina Hare disse:

    QUEM ACREDITARIA QUE UMA PESSOA formada em Letras Clássicas pela PUC , com mestrado e doutorado em Literatura Brasileira na UFRJ e pós doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Columbia, Nova York , poderia vir a interessar-se na cultura produzida nas periferias ?
    E QUE ESSA MESMA PESSOA, QUE TEM MAIS DE 7O ANOS, também pudesse se interessar por novas tecnologias digitais ?

    Pra quem duvida , existe Heloísa Buarque de Hollanda.
    Eu tive a sorte de conhecê-la de perto e ainda de chamá-la de Helô.

    Hare
    http://www.tvhare.com

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